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Como é viajar depois do fim?

Sabe quando uma coisa importante se acaba na sua vida e de repente tudo parece ficar meio nublado? Como pensar em viagens nesse meio todo? Que papel têm as viagens na recuperação ou reorganização da vida? Foi pensando em tudo isso que eu resolvi escrever um post muito pessoal que conta com depoimentos de amigas queridas que passaram por diferentes formas de perda, luto ou ruptura e ilustram aqui a relevância (ou não) das viagens.

Faz tempo que tô me ensaiando para escrever esse post, faz tempo que estou com os depoimentos guardados. Estava reunindo forças para usar de delicadeza e respeito para com a história de cada uma delas. Reunindo forças para organizar em um texto a minha própria história de perda. Mas essa virá em um post separado…
Então, eu espero que esses relatos sinceros possam tocar você, possam fazer pensar e que você tenha o mesmo profundo respeito que eu tenho por essas mulheres fortes que passa(ra)m por tudo isso e ainda arrumam as malas e viajam, e ainda saem da cama e vivem e lutam!

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Paula, minha colega de trabalho e amiga da vida. Perdeu uma irmã de forma trágica em 2012 “Em 2010 estive em Buenos Aires com minha irmã Renata. Foi a primeira viagem internacional dela, e a minha primeira vez em Buenos Aires. A empolgação com toda a viagem, antes, durante e depois, foi muito especial. Cumprimos toda a tabela de turista tradicional, conhecendo os pontos turísticos, provando da gastronomia típica, assistindo show de tango e percorrendo as ruas da cidade a pé. Mas além da experiência turística em si, existem as entrelinhas… aquilo que torna tudo mais marcante.

Claro que fiz outras viagens e conheci outros lugares com a Renata durante nossa vida, mas Buenos Aires foi o único lugar em que estivemos a maior parte do tempo sozinhas, compartilhando apenas da companhia uma da outra e vivendo momentos só eu e ela. De todas as viagens que eu fiz, talvez essa seja a que eu tenho a lembrança mais forte de cada momento vivido lá, e de cada lugar por onde passamos. E essas lembranças continuarão para sempre muito intensas e especiais para mim, porque minha irmã não está mais aqui para relembrar desses momentos comigo.

A Renata faleceu em 2012. Lembro que naquele ano a Poliana organizou uma atividade de campo com alunos para lá (https://www.comendochucruteesalsicha.com.br/buenos-aires-de-novo-agora-com-alunos/) e me convidou para ir também. Eu não fui. Eu não queria (e não quero, confesso) mais ir para Buenos Aires. Em 2014, em um cruzeiro com alunos para atividade de campo acabei passando por lá, pois essa era uma das paradas do navio. Antes da viagem, procurei não pensar muito nisso, afinal o objetivo maior era a experiência do cruzeiro em si, então tentei abstrair das lembranças de Buenos Aires e evitar o pensamento de que eu não queria ir pra lá. Quando o navio aportou, respirei fundo e desembarquei para acompanhar a turma. Foram só algumas horas pelo centro de Buenos Aires, mas não foi nada fácil andar pela Calle Florida, por exemplo, porque quando estivemos lá, ela adorou entrar em cada lojinha e comprar bugigangas… Também não me senti feliz indo novamente para o Caminito, ou passando pela Plaza de Mayo. No Obelisco, eu precisei me afastar do grupo porque já não continha mais a emoção e as lembranças que estavam vindo à tona, assim como não contenho a emoção enquanto escrevo esse texto. Era como se eu estivesse esperando que a qualquer momento ela reaparecesse para estar comigo ali de novo naqueles lugares.

A forma como cada pessoa lida e supera suas perdas é muito individual. Não é que eu não goste de lá, acho Buenos Aires muito legal! Mas para mim, aquela foi, e sempre será, uma viagem só minha e da Renata, cujas lembranças eu quero preservar assim.”

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Thaísa, amiga desde o tempo de estudante. Foi demita repentinamente em 2017  “Quando a Poli propôs dar meu depoimento, quase declinei de pronto. Não gosto de expor minha intimidade sentimental por aí. Depois avaliei que seria bacana poder relatar um pouco sobre essa experiência inesquecível (nem que ela não vá ao blog)

Fui demitida abruptamente, após 13 anos e 6 meses de dedicação intensa a um grande projeto. Foi duro ter que deixar algo que ajudei a nascer. (E foi mais dura ainda a forma). Foi um baque, fiquei triste e zonza internamente. Naquela semana do desligamento, eu ainda digeria tudo, um amigo me ligou. Sem saber o que passava, pra ter notícias minhas. E foi após o papo com ele que resolvi encarar uma viagem fora do país.

Curso e destinos escolhidos: retomar meu inglês, em Nova Iorque, EUA. A escolha foi conveniente por ter uma tia querida que mora próximo a NYC, em New Jersey. E também providencial, por retomar contato com uma grande amiga, que habita aquelas bandas há uns bons anos. Ter esse suporte de logística e acolhida emocional fizeram toda diferença nos itens segurança e calor humano, visto que meu emocional estava encarando uma baita mudança. E mudanças sempre causam impactos.

A experiência em si foi uma escola mas três dimensões: pensar, sentir, agir (querer).
Marcada de coisas muito boas: estudar um idioma (conhecer); relacionar-me com pessoas novas (de várias partes do mundo); conhecer/estar em museus; ir a shows, ópera, parques, praças, cidades, estações de trens. Encarar trânsito, transporte público, metrôs, ônibus, Uber. Comidas, cheiros e sabores diferentes. Enfim. Deu até pra esticar um pouco na Virgínia, Washington DC e São Francisco.

Em termos mais subjetivos, digo que ampliei a percepção sobre o aqui e agora. Pratiquei a atenção plena e me vi aprendiz das sutilezas. Claro que esse posicionamento já é algo que venho buscando, desde antes. A viagem não o despertou do nada! Mas ela me proporcionou colocar em prática essa bagagem da dimensão espiritual de uma forma muito bonita. Eu me vi muito capaz, agindo bem, mesmo passando por um momento de fragilidade e luto.

Estar fora me proporcionou encarar tudo com mais leveza e lucidez. Deu-me mais naturalidade ao desapego (inicial) e me permitiu abrir as asas de uma forma que eu não tinha tido oportunidade ainda. Tive que aprender a me virar em diversas circunstâncias, numa cidade grande e em outro idioma. Essa saída da zona de conforto só foi possível por eu estar em outro lugar. Experienciando o outro, o diferente, o desconhecido.

Sou grata aos que me receberam, aos encontros e também a essa oportunidade ímpar.
Agradeço a Poli pela oportunidade.”

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Mariana, amiga de longa data. Passou por um divórcio difícil  “uma das melhores coisas que me aconteceu na vida foi o fim do casamento. Estava casada com um psicopata diagnosticado, que cometia pequenos crimes todos os dias, e que certamente estava me enlouquecendo. Sofri como qualquer outra pessoa por ter que desmontar sonhos e imagens projetadas, mas tive também a alegria de receber uma bolsa de estudos para morar na Inglaterra por seis meses. Sair de casa, ficar longe dos colegas de trabalho, de amigos e da rotina foi maravilhoso e fundamental para o encontro de propósito, para o foco e para filtrar, inclusive, quem eu queria mais perto. Sempre que posso, recomendo que pessoas façam viagens sozinhas – mesmo que para um lugar a 10km de casa. Ficar alguns dias consigo mesmo, ou muitos, é mais que bom, é necessário.”

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Michelle, colega de trabalho e de tantas lutas. Divorciada, mãe de dois e venceu uma batalha imensa contra o câncer  “estar sozinha e estar bem consigo mesma é algo libertador. As viagens são centrais para a vida, para conhecer outros lugares, se encontrar com você mesma. Eu estou separada há mais de dez anos e me sinto muito feliz em poder viajar: seja sozinha ou seja com os meus filhos. Adoro viajar com eles, com as amigas ou sozinha mesmo. Gosto muito de viajar sozinha. Essa é uma questão (viajar sozinha) de se conhecer. Na viagem você tem oportunidade de conhecer pessoas, seja no trajeto ou no destino (hotel, passeios). O importante é você estar bem com você mesma e feliz em poder conhecer novos lugar e culturas aprendendo mais a cada dia. Viajar é preciso mesmo que sozinha.”

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Gi, colega de trabalho e amiga do coração. Foi vítima de violência sexual em 2016 “em março de 2016 eu estava em meu pequeno apartamento com meu marido em casa. Aproximadamente 2h30 da manhã eu acordei com alguém apalpando minhas partes íntimas, eu estava só no quarto o marido estava na sala. O quarto estava escuro mas eu vi um vulto encapuzado empunhando uma arma pontiaguda sussurrando mandando-me calar e me ameaçando de morte. Nesse momento eu entendi que ele iria me estuprar e certamente já havia matado meu marido. Foram segundos terríveis e finais da minha vida. É muito perturbador dizer isso: eu me vi sendo estuprada e morta na minha cama. Então ele deitou sobre mim me imobilizando e sussurrando que iria me matar e me tapou a boca. Eu continuava pensando que seria morta. Quando coloquei a mão na arma eu vi que era uma chave de fendas, e com muita coragem eu virei a chave e pude dar um grito de socorro. Então eu ouvi meu marido batendo na porta – foi então que eu me dei conta que eu estava trancada dentro do meu quarto com o estuprador. Eu tenho um lapso de memória entre eu lutar contra o estuprador e chegar até a porta do quarto, não lembro como foi, mas foi um momento de forte agressão. Me recordo de estar desesperada no escuro e sem vê-lo. Eu não conseguia girar a chave e ouvia meu marido desesperado sem saber o que ocorria. Quando eu pude abrir a porta, o sujeito pulou a janela. Nesse momento eu comecei a chorar intensamente com desespero. Mais tarde, quando a polícia chegou eu vi a chave de fenda jogada atrás da porta, eu percebi que a joguei com força e que foi isso que me salvou a vida.
Era muito calor, e havia 12 policiais dentro do apartamento com as janelas todas fechadas, uma lembrança de pavor. Depois disso todas as janelas foram parafusadas, eu não tinha coragem de abri-las por muitas semanas até me mudar de casa.

A partir disso eu levei um tempo para ir para a terapia e me sentia muito poderosa por ter lutado contra meu estuprador e não ter sido estuprada. Mas fui desenvolvendo sintomas que eu não entendia: me afastei das pessoas, não me sentia a vontade para sair de casa, evitava lugares escuros… Durante as primeiras semanas em meu novo apartamento eu colocava móveis nas portas para evitar que alguém entrasse e a todo momento eu trancava portas e janelas com medo de que alguém entrasse.

Sempre viajei muito e sempre gostei de viajar. Entretanto, após isso eu fui me distanciando do universo das viagens, elas (as viagens) se tornaram um problema para mim, pois se eu estava buscando segurança dentro do meu cantinho em casa eu não consigo me imaginar indo para um lugar desconhecido, sem saber se é seguro… Caminhar por ruas estranhas e ficar em hotéis nunca antes estados. Como eu fui atacada dentro do meu lugar mais seguro na minha vida, qualquer lugar me parece difícil. Então, eu hoje não consigo viajar, as poucas viagens que fiz desde a partir do evento foi por extrema necessidade e por conta do trabalho. Ainda assim, evitei algumas delas por essa razão.

Nessas poucas vezes em que fiquei em hotéis foi apavorante. Entrava em pânico quando me colocavam em andares baixos. Em algumas ocasiões passei duas noites em vigília com medo de que alguém entrasse no quarto. Recentemente viajei para Foz, em um hotel com um corredor longo e escuro. Passei muito medo nesse hotel. Eu desenvolvi um ritual de antes de fechar a porta verificar minuciosamente se havia alguém lá dentro ou se havia possibilidade de alguém entrar… Eu me senti muito insegura ao ver o tamanho da janela do banheiro pela qual alguém pudesse passar e que a janela do quarto era igual à do meu antigo apartamento.

Hoje eu não me sinto segura em viajar, tenho medo de situações adversas que possam acontecer. Para quem não passou por isso, pode parecer frescura mas coisas medonhas acontecem até no lugar mais seguro da sua vida, então em lugares desconhecidos pode ser ainda pior…

Eu invejo quem consegue viajar, só que para mim não dá mais. Mas quem sabe eu volte a fazer isso. Faço terapia há dois anos e quem sabe volte a viajar, mas hoje não. Ainda que ache que viajar seja a melhor coisa da vida.”

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Espero que esses depoimentos tenham inspirado você a seguir viajando, como forma de escapar de alguma realidade dura demais, de aprender, de se conhecer, de se reorganizar como pessoa. Abraços.

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11 Comentários

  1. obrigado por esse post, e gratidão imensa a cada uma das mulheres que compartilharam suas experiências. Nesse momento, estou em viagem e distante do meu país em histeria coletiva, tem sido forte. Um abraço!

  2. Viajar é preciso, e compartilhar também ajuda acurar, desejo força a cada uma das guerreiras que deram seu depoimento e muitas viagens, super beijo!!!

  3. Nossa, um depoimento mais forte e emocionante que o outro e todos cheios de força porque tenho certeza que não foi nada fácil para essas mulheres exporem suas histórias. Torço que todas recuperem-se totalmente de seus traumas e sofrimentos, todos eles, independente do que os causou. Que a vida siga em frente com perseverança e esperança.

  4. Agradeço a essas fortes mulheres por darem seus depoimentos. Perdas, traumas e agressões são coisas difíceis de superar, mas sempre temos que buscar um caminho para isso. Que bom que cada uma delas achou, de algum modo, um jeito de seguir em frente!

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